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11 outubro, 2007

A ninfa (o início)


Blys despertou das águas primordiais decorria o ano perfeito. Pouco passava das 3 orvalhadas que antecedem a aurora quando um lótus encarnado desabrochou no lago quente da terra vermelha e adocicada e delicada de onde nascem os devaneios e caprichos... o lugar secreto de criaturas feéricas que lançam fragâncias agridoces. Blys nasceu. Girou em tropelias, fez soar incontáveis gargalhadas na escuridão e, antes de mais um nascer das luas, perdeu-se em desejos, loucuras, paixão...

18 junho, 2007

chuva de mudanças

Há noites assim, em que as horas demoram a passar e a febre faz subir a temperatura de um simples desejo partilhado num murmúrio. Blys olhou a tempestade que se aproximava com o cheiro húmido de terra molhada, de pedras de granito desgastadas em pequenas partículas de quartzo, feldspato... Limpa-se o chão, varre-se o ar... e as lembranças. O mundo pesado de memórias mais que de átomos ou matéria. São os anos que se acumulam em olhares e sons e cheiros trocados, partilhados e que se tornam inconfundíveis. Por isso, aquele cheiro a gotas, a água, a gente... o odor dos cabelos, das peles, das carnes entranhadas, das bocas esquecidas, de suor, transpiração, raiva até, a emoção, recriaram a imagem que guardava há tanto tempo no canto de um órgão palpitante chamado coração. A tempestade da mudança... Há sempre tantos sinais a avisar, muda a cor do céu, transforma-se a pressão do ar... e até o seu espírito dizia baixinho que algo estava para acontecer. "Não", pensava. "O sol vai brilhar", convencia-se em vão. Ah a inocência... Muda-se o sorriso, perde-se a cor, muda-se o olhar, perde-se o sabor!... e a chuva que continua a cair... Tantas gotas, a imensidão. Eis que acaba no chão, sentindo cada partícula ao pormenor, decifrando até a textura e o odor... Blys queria o Mundo sem o viver intensamente mas foi a chuva que, entre ritmos e ventos, mudanças e alentos lhe suspirou ao ouvido que cada gota contém um universo apenas visível a quem consegue expandir, num só segundo, a imensidão da mente.


Sweet sweet rain
Feel the rain on your face
Let the Heavens open
Feel the rain
Feel the rain

10 maio, 2007

a ninfa...(parte perdida)

Blys sentiu o cheiro da saudade. Vinha a dançar por entre as ruas entrançadas da cidade antiga, bailando até ela num sopro de vento. Trazia pedaços de um ser, rasgados como um tecido velho, esquecido num qualquer canto empoeirado. Era de Homem o cheiro, almiscarado, inebriante como uma bebida que entra depressa demais para a corrente de plaquetas e hemácas que transformam o sangue num fluido carmesim. Estava empoleirada numa janela esquecida de um sótão perdido quando sentiu o aroma que logo a atormentou. Um misto de tristeza, ansiedade, alegria pela memória e eis que algo começou a resvalar pelo seu rosto. Um líquido salgado, transparente que logo lambeu com a ponta da língua rosada pelo prazer de um novo sabor. Fechou os olhos e levou a mão à cara para tocar tal substância que foi espalhando pelo rosto até não existir mais. Queria sentir outra vez, queria poder ser o líquido e deixar-se verter por tantas e muitas caras marcadas por sorrisos, tristezas, olhares de surpresa ou diversão... Queria o todo através dessa mistura de água com sal e sentimento. Ser todas as gotas, ser todas as faces e todo o mundo num só elemento!!! O profundo conhecimento, prazer, desejo. Blys entregou-se ao vento da saudade e deixou-se dançar sem sombras, sem contrastes ou reflexos.
Blys sentiu o sabor da saudade... Puro regozijo!

05 abril, 2007

a ninfa...(parte2)


O contacto físico pode ser perigoso se a líbido estiver demasiado desperta... se o ventre pede, se a boca mordisca e se as mãos procuram entrelaçar, ou simplesmente tocar até sentir o calor, as pequenas linhas marcadas nos dedos, as curvas sinuosas cravadas pelo tempo e aquela humidade que denuncia um nervoso miudinho.
Foi, porém, num gesto brusco, quase desajeitado pela dor que a pele reclamava, que eles se sentiram. Primeiro tentando entrelaçar os dedos e depois numa luta de lábios qual tentativa de decidir quem seria a presa e qual o caçador.
Para mostrar toda a sua virilidade, puxou aquela pequena ninfeta cor de ginja, que não deveria ter mais de metro e meio, contra si e num com um movimento rápido mas sublime cruzou as suas pernas no seu colo. Elevou-a no ar... ia fazer dela a sua pequena deusa, a sua maçã proibida, o seu doce de cereja por uma noite! Queria tê-la ali, naquele instante em que os dois corpos se encontraram quase por completo, ou não fossem as vestes (menos ou mais ousadas, sempre espartilhadoras de emoções), e vibravam em frenesim. As veias dele palpitavam incessantemente tal como os músculos se contraíam em espasmos espectantes. Estava pronto e ela sabia-o.
Suspensa, ela puxou-lhe algumas madeixas de cabelo para trás por forma a poder simplesmente contemplá-lo e deliciar-se com o brilho quente daqueles olhos que a continuavam a beijar ainda que de longe.
Estava a provocá-lo! (e ele começava a protestar com a mão livre que lhe percorria o corpo sem pedir licença...)
Estava a mirá-lo como quem vê uma montra, um catálogo, um desfile e procura decidir o peso da tentação. Homens como ele já tinha conhecido alguns, vários... Sempre iguais. Sempre o mesmo jeito, o mesmo feitio e inevitavelmente a mesma confiança que rapidamente se transformava, a seu ver, em pura ingenuidade.
Mas aqueles olhos tinham algo diferente... pimenta preta com umas gotas de mel... Isso! Tinha um olhar agridoce.
Como se fosse apoderada por um sentimento carinhoso, largou as poucas madeixas com que o prendia, molhou os lábios dele com a sua língua e quebrou o silêncio:

-"Queres?"

28 março, 2007

a ninfa... (parte1)


É à noite que os corpos se encontram, se mexem e remexem entre as luzes turvas. Se movem ao som da lua, se curvam entre penumbras de pautas articuladas. Os olhares trocam-se e perdem-se, brilham e ofuscam. Os lábios aquecem e pedem um pouco mais de licor inebriante, um pouco de chuva... humidade... a língua mergulha na boca - louca - enquanto o suor teima em escorrer pela dança frenética das luzes.
Foi numa dessas noites de criaturas esvoaçantes, de mariposas rodopiantes, em que tudo se mexe, se toca e se troca que o corpo dela cheirou o dele... de leve... de mansinho... como se pedisse licença para sentir. Olharam-se longamente tentando perceber a atracção entre as mãos, entre os dois órgãos palpitantes... e a Terra que girava em volta, tornando turva a imagem dos seres em redor... secundários... desinteressantes...
O cabelo dela esvoaçava enquanto os olhos dele percorriam as curvas da silhueta perfeita que ela não escondia por puro devaneio de menina mulher que se quer afirmar sem pudor. O colo de alabastro, coberto de brilhos em demasia, mostravam duas pequenas saliências; indícios do que viriam a ser fontes com que alimentar não só frutos mas também olhares lascivos de machos não preparados para esta ninfeta.
Ah o cheiro de menina que exalava deixava-o completamente fora de controlo, confundia-lhe os sentidos. Todo ele queria senti-la, tocá-la, tê-la e percebê-la como um troféu. Imaginava aquele rosto redondo, vermelho de luxúria e aqueles caracóis cor de cereja desalinhados sobre os seus lençóis!
Queria prová-la, saber o seu sabor mais que com um beijo que não ia roubar. Não!
Roubar não era suficiente, não tinha chama, não tinha charme nem carisma. Não era sofisticado, não era o mais apropriado. Aquela pequena ninfa cor de cereja merecia algo... diferente... Era deliciosa demais para simplesmente mordiscar, tinha que a devorar por inteiro e no final poder saborear o caroço, o suco...
A troca de olhares difusos continuava enquanto os corpos se entendiam numa dança que fugia ao ritmo espalhado pela sala. Os dois estavam alienados do tempo e do espaço.
Eram apenas desejo.
Falar era proibido...