06 junho, 2007

Era uma vez... (1)

Era uma vez uma fada. E a fada vivia num castelo, desses encantados, com véus e flores a cobrir os parapeitos das janelas, elas próprias encantadas. Como todas as fadas, vestia de cor-de-rosa e passeava com varinha de condão, sempre acompanhada de pequenas borboletas, libelinhas e colibris. Tinha cabelos loiros e olhos brilhantes de luar, mas faltava-lhe um príncipe para beijar. Naquela manhã encantada, a minha fada encantada, como o são todas as fadas e também todas as manhãs, ergueu a varinha para fazer um vestido. Não um vestido qualquer, que nenhuma fada aceita simples tule, organza ou cetim. Teria de ser um vestido especial, em que todos os elementos estivessem conjugados numa perfeita união. Não poderia faltar o brilho do sol, ou os raios da lua, nem sequer as ondas do mar ou a leveza do próprio ar. Com aquele vestido, a minha fada queria voar...
Convocaram-se os senhores dos mares, os reis da terra e deuses do céu, todos num concílio para que se pudesse criar tão especial vestido. E passaram-se as horas encantadas, por relógios encantados espalhados por tantos e tantos quartos enfeitiçados pela magia de uma inebriante sedução que emanava do ser feérico. Nada parecia agradar, nada parecia ser verdadeiramente especial para uma fada, que como todas, padece do romantismo das flores e do encantamento dos animais que se encontram una única vez para partilhar toda uma vida. Sim, a minha fada encantada e enamorada queria o que nem os deuses tinham para oferecer. Faltava-lhe o beijo encantado do príncipe, sem o qual não fazia sentido fazer tal vestido.
As notícias logo se espalharam pelo reino encantado, como todos os que fazem parte de contos de fadas. "Onde estará o meu príncipe?", perguntavam os caracóis loiros do cabelo encantado da fada encantada. O seu pedido ecoava em música nos ouvidos de todos as criaturas encantadas do bosque encantado que envolvia o reino encantado. Todos procuravam o príncipe do beijo... onde estaria? onde estará? onde estás...?

31 maio, 2007

....porque há dias lamechas



``In vain have I struggled. It will not do. My feelings will not be repressed. You must allow me to tell you how ardently I admire and love you.''

Mr. Darcy in Jane Austen's Pride & Prejudice, chapter XI of volume II

10 maio, 2007

a ninfa...(parte perdida)

Blys sentiu o cheiro da saudade. Vinha a dançar por entre as ruas entrançadas da cidade antiga, bailando até ela num sopro de vento. Trazia pedaços de um ser, rasgados como um tecido velho, esquecido num qualquer canto empoeirado. Era de Homem o cheiro, almiscarado, inebriante como uma bebida que entra depressa demais para a corrente de plaquetas e hemácas que transformam o sangue num fluido carmesim. Estava empoleirada numa janela esquecida de um sótão perdido quando sentiu o aroma que logo a atormentou. Um misto de tristeza, ansiedade, alegria pela memória e eis que algo começou a resvalar pelo seu rosto. Um líquido salgado, transparente que logo lambeu com a ponta da língua rosada pelo prazer de um novo sabor. Fechou os olhos e levou a mão à cara para tocar tal substância que foi espalhando pelo rosto até não existir mais. Queria sentir outra vez, queria poder ser o líquido e deixar-se verter por tantas e muitas caras marcadas por sorrisos, tristezas, olhares de surpresa ou diversão... Queria o todo através dessa mistura de água com sal e sentimento. Ser todas as gotas, ser todas as faces e todo o mundo num só elemento!!! O profundo conhecimento, prazer, desejo. Blys entregou-se ao vento da saudade e deixou-se dançar sem sombras, sem contrastes ou reflexos.
Blys sentiu o sabor da saudade... Puro regozijo!

03 maio, 2007

Febre


"Se escrevo o que sinto é porque assim diminuo a febre de sentir"
Fernando Pessoa

concordo e subscrevo...

29 abril, 2007

quero...

Quero-te provar, encontrar esse equilíbrio entre o sabor e o cheiro do que és por dentro... quente, doce, vibrante... Poder morder das próprias entranhas o suco da vida e beber até saciar a minha sede de ti.

Conheço-te de cor, sei a ordem dos teus traços, o perfil do teu corpo, o toque da tua pele que alterna entre o macio e o áspero, o liso e o rugoso... a pele que te protege de mim e desse desejo perverso de te saber. Encontrar-me nas tuas veias, nos brônquios, no fémur, cúbito e rádio, em todas as células, órgãos e miudezas e poder fazer-te parte do que sou, do tangível e visível, para sempre.

Entra em mim, alimenta os meus poros, o meu desejo mórbido, o meu sangue!!!

E enquanto suspirares, enquanto a morte se for apoderando, lentamente, dos teus sentidos, saberás que continuarás a viver em mim, pelo gosto, pelo sabor, levemente temperado de especiarias que o próprio ar carrega.

Ah, o deleite, o prazer, o derradeiro pecado original. Pertenceres-me completamente como a caça ao caçador.

Oferece-te!
Eu espero...

16 abril, 2007

e se...?


E se eu hoje quisesse beber da tua carne, saborear as veias palpitantes enquanto ainda vertem, sentir esse odor quente, fértil, semi-vivo, e lambusar-me das tuas vísceras?

medo...

perder...

só perde a razão quem ainda gosta de pensar. só tem medo quem ainda pensa.

Preferes ter as minhas entranhas?
Hoje não!!!
É a minha vez...

05 abril, 2007

a ninfa...(parte2)


O contacto físico pode ser perigoso se a líbido estiver demasiado desperta... se o ventre pede, se a boca mordisca e se as mãos procuram entrelaçar, ou simplesmente tocar até sentir o calor, as pequenas linhas marcadas nos dedos, as curvas sinuosas cravadas pelo tempo e aquela humidade que denuncia um nervoso miudinho.
Foi, porém, num gesto brusco, quase desajeitado pela dor que a pele reclamava, que eles se sentiram. Primeiro tentando entrelaçar os dedos e depois numa luta de lábios qual tentativa de decidir quem seria a presa e qual o caçador.
Para mostrar toda a sua virilidade, puxou aquela pequena ninfeta cor de ginja, que não deveria ter mais de metro e meio, contra si e num com um movimento rápido mas sublime cruzou as suas pernas no seu colo. Elevou-a no ar... ia fazer dela a sua pequena deusa, a sua maçã proibida, o seu doce de cereja por uma noite! Queria tê-la ali, naquele instante em que os dois corpos se encontraram quase por completo, ou não fossem as vestes (menos ou mais ousadas, sempre espartilhadoras de emoções), e vibravam em frenesim. As veias dele palpitavam incessantemente tal como os músculos se contraíam em espasmos espectantes. Estava pronto e ela sabia-o.
Suspensa, ela puxou-lhe algumas madeixas de cabelo para trás por forma a poder simplesmente contemplá-lo e deliciar-se com o brilho quente daqueles olhos que a continuavam a beijar ainda que de longe.
Estava a provocá-lo! (e ele começava a protestar com a mão livre que lhe percorria o corpo sem pedir licença...)
Estava a mirá-lo como quem vê uma montra, um catálogo, um desfile e procura decidir o peso da tentação. Homens como ele já tinha conhecido alguns, vários... Sempre iguais. Sempre o mesmo jeito, o mesmo feitio e inevitavelmente a mesma confiança que rapidamente se transformava, a seu ver, em pura ingenuidade.
Mas aqueles olhos tinham algo diferente... pimenta preta com umas gotas de mel... Isso! Tinha um olhar agridoce.
Como se fosse apoderada por um sentimento carinhoso, largou as poucas madeixas com que o prendia, molhou os lábios dele com a sua língua e quebrou o silêncio:

-"Queres?"