04 setembro, 2007

asas brancas

Quero folhas brancas para escrever. Folhas sem manchas ou passado, lisas ou em quadriculado. Linha após linha, preenchem-se os espaços de sentidos e sabores e tantos tantos odores que se perdem em palavras. A caneta vai delizando e as folhas, outrora brancas, estão já marcadas pelos pequenos grãos de areia, pelo sol, pelo sal e por mim.
Hoje sou sombra porque não a tenho. Irradio ondas de calor quando o sol sorri do seu ponto máximo... o meu zénite. Estende-se a toalha, escorre-se o cansaço e distrai-se o beijo em suspenso. À medida que as cigarras aumentam o ritmo do bater das asas - furor! - amainam-se as vozes e no ar apenas o silêncio ondulante do mar. Uma e outra, uma atrás da outra...
Numa cumplicidade de espuma lavam-se os segredos e os gritos roucos entregues em surdina. Entrega-se o corpo à luxúria num acto de carne entre pele e calor.
"- É Ícaro quem está aqui!"
Gritam os velhos de barbas e as musas de outrora e do tempo. Errante, a epiderme continua a oferecer-se... agora com outros aromas e um novo brilho a óleos de amêndoas doces e canela. Paira o pecado cometido em sintonia, esquecem-se as horas cinzentas e as botas de chuva. Até a gabardina amarela, escondida entre mil e uma coisas, parece adormecida da memória.
Contempla-se, esgota-se. É o prazer dos poros que gritam em êxtase sem perdoar! Lá longe continuam as ondas geladas, o líquido frio e salgado...
"- Cheira a mar", diz a menina de tranças loiras e mini-saia cor de pastilha elástica.
Deixe que se cheire e se sinta. Comam os olhos, o nariz, o corpo e tudo!
Planam as asas sem sombra ou luz ou história. Apenas brancas, por escrever...

28 agosto, 2007

beijo de borboleta

Acordei hoje num raio de sol.

Fui espreitando docemente
pela minha janela entreaberta,
esticando as longas asas
enquanto o sono
não desperta.

Num gesto traquina,
em jeito de travessura,
voei levemente
até poisar na boca nua.

Roubei-te o beijo, o gosto, a pele crua
e passeei-me pelos teus poros
até ser tua.

Quis-te assim, pela manhã, ao acordar...

17 agosto, 2007

muda...



Ligo directo para a caixa de correio só para ouvir a tua voz,
Sei que é cena fora mas todo o dia chega a hora em que
o lado esquerdo chora quando se lembra de nós
A vida corre tranquila, cada vez menos reguila
meto guita de parte e a cabeça não vacila tanto
Para minha alegria e meu espanto
Pode ser que o passado fique por onde deve estar:
No pretérito imperfeito, já que não é mais-que-perfeito,
Este é um presente que eu aceito
Para atingir a tranquilidade
Que supostamente se atinge com a nossa idade
A verdade é que a saudade do que passou
Não é mais que muita...
Mas por muita força que faça ela passa por saber que
te vivi...
Tu deste tudo e eu joguei, arrisquei e perdi
Agora,

Muda o teu número, eu mudei o meu,
Muda o teu número, eu mudei o meu,
Muda o teu número, eu mudei o meu,
Muda o teu Mundo que eu mudei o meu.

Cada vez que eu ligo tento deixar mensagem
mas acabo por nunca arranjar a coragem
Necessária
Gostava apenas de partilhar contigo o quotidiano
habitual
Nada que se compare com as correrias
doutras alturas e doutros abismos
E já que falo por eufemismos
Gostava de dizer que ainda gosto bastante de ti...
A casa tá diferente, parece digna de gente
Dá gosto sentar no sofá com a tv pela frente
Comprei uma máquina de café
Xpto, bem bonita, azul bebé
Ocasionalmente cozinho e bebo o meu vinho
E esqueço o fumo que nos dava aquele quentinho
Hoje em dia é mais à base do ar condicionado
Condicionei a tentação num clima controlado
Quero que saibas que tou bem, sei que tu mais ou menos
Sempre gostaste de brincar em perigosos terrenos
Em relação a isso eu não sei o que fazer
E se calhar é por isso mesmo que acabo por não dizer
que
a verdade é que a saudade do que passou
Não é mais que muita...
Mas por muita força que faça ela passa por saber que
te vivi...
Tu deste tudo e eu joguei, arrisquei e perdi
Agora,

Muda o teu número, eu mudei o meu,
Muda o teu número, eu mudei o meu,
Muda o teu número, eu mudei o meu,
Muda o teu Mundo que eu mudei o meu.

----- Mundos mudos (Da weasel)


30 julho, 2007

tu e eu


É nos dias mais cinzentos que te encontro. Sentada sobre o parapeito da minha janela, perdida sobre o mar. Há quem diga que ouço os teus murmurios nos meus sonhos, mas eu sei que apenas te sinto quando o meu barco encontra o cais. Entre jeitos e enleios profundos, descortino a sombra dourada que paira na tua mente e se envolve em cada momento que te sinto. Passo a passo caminhamos de mãos dadas, voltamo-nos para o próprio vento em busca daquela resposta que irá fazer-nos sorrir. Percebo os teus olhares travessos em tons de sombra, repetindo cada sílaba que sai da minha voz. Não tremo nem temo os dias porque sei que estás aí. Somos um tu e eu, eu e tu, o encontro de mim com o meu próprio ser que por momentos rompeu as próprias raízes que nos ligavam.

19 julho, 2007

do what you have to do

What ravages of spirit
Conjured this temptuous rage
Created you a monster
Broken by the rules of love
And fate has led you through it
You do what you have to do
And fate has led you through it
You do what you have to do ...
And I have the sense to recognize that
I don’t know how to let you go
Every moment marked
With apparitions of your soul
I’m ever swiftly moving
Trying to escape this desire
The yearning to be near you
I do what I have to do
The yearning to be near you
I do what I have to do
But I have the sense to recognize
That I don’t know how
To let you go
I don’t know how
To let you go
A glowing ember
Burning hot
Burning slow
Deep within I’m shaken by the violence
Of existing for only you
I know I can’t be with you
I do what I have to do
I know I can’t be with you
I do what I have to do
And I have sense to recognize but
I don’t know how to let you go
I don’t know how to let you go
I don’t know how to let you go


--- Sarah McLachlan

02 julho, 2007

(i)material

Se de um gesto triste ou de um sorriso falhado eu visse a transparência da alma… Arrancá-la, sangrá-la, esgotá-la sem pudor! Ver as vísceras, os órgãos, os músculos. Ver bem, ver dentro de mim. A matéria de que se é feito, os átomos que se movem, moléculas, células até ao infinito e deleitar-me com essas pérolas palpitantes, esses contornos que me fazem Ser. Entre estímulos e reacções movimentos ou vibrações, assegurar os limites entre cada porção e saber a matéria que faz bater o coração.

Ser a veia que transporta, ser o osso que sustenta. Ser carne, sangue e tudo… E absorver num sorriso o cheiro delicado de uma Primavera tardia, da relva cortada, molhada numa noite fria. Deixar que o pensamento voe solto sem as fronteiras do metafísico, exorxizando todo o contexto real, tangivel, palpável.


Existir mais que Ser... Possuir mais que apenas Ter...
Planar entre universos de omnipresença e Sentir... sem tocar, sem ver ou ouvir, sem cheirar ou saborear... De uma orgia dos sentidos passar para o nada simples do Nada, a ausência, o abstracto em planos díspares, o Tudo dentro do vazio e deixar que o riso daquela criança de guarda-chuva amarelo que brinca lá longe, trespasse o corpo e se fixe na alma como os grãos de areia arrastados da praia pelo vento norte.

18 junho, 2007

chuva de mudanças

Há noites assim, em que as horas demoram a passar e a febre faz subir a temperatura de um simples desejo partilhado num murmúrio. Blys olhou a tempestade que se aproximava com o cheiro húmido de terra molhada, de pedras de granito desgastadas em pequenas partículas de quartzo, feldspato... Limpa-se o chão, varre-se o ar... e as lembranças. O mundo pesado de memórias mais que de átomos ou matéria. São os anos que se acumulam em olhares e sons e cheiros trocados, partilhados e que se tornam inconfundíveis. Por isso, aquele cheiro a gotas, a água, a gente... o odor dos cabelos, das peles, das carnes entranhadas, das bocas esquecidas, de suor, transpiração, raiva até, a emoção, recriaram a imagem que guardava há tanto tempo no canto de um órgão palpitante chamado coração. A tempestade da mudança... Há sempre tantos sinais a avisar, muda a cor do céu, transforma-se a pressão do ar... e até o seu espírito dizia baixinho que algo estava para acontecer. "Não", pensava. "O sol vai brilhar", convencia-se em vão. Ah a inocência... Muda-se o sorriso, perde-se a cor, muda-se o olhar, perde-se o sabor!... e a chuva que continua a cair... Tantas gotas, a imensidão. Eis que acaba no chão, sentindo cada partícula ao pormenor, decifrando até a textura e o odor... Blys queria o Mundo sem o viver intensamente mas foi a chuva que, entre ritmos e ventos, mudanças e alentos lhe suspirou ao ouvido que cada gota contém um universo apenas visível a quem consegue expandir, num só segundo, a imensidão da mente.


Sweet sweet rain
Feel the rain on your face
Let the Heavens open
Feel the rain
Feel the rain