15 novembro, 2010

sabes?

Sabes quantas vezes me esqueço do sol?
Sabes quanto me pesa esse teu ar?
É como se todo o mundo olhasse para longe
E tudo voltasse à origem, ao mar.

Sabes qual a cor do teu papel?
Sabes quão doce me é a tua loucura?
Até podia escrever-ta
ou mesmo esquecer-te,
mas perco-me sempre por essa tua (minha?)
rua escura!

...meia volta, volta e meia
                                 das minhas raízes soltam-se as vozes,
                                 reclamando raios de lua cheia.

08 novembro, 2010

até chegar

Bastou um sopro, apenas um sopro para que abrissem fendas nos pilares do castelo que começava a construir (no ar?).
Das palavras se fez vento, do vento se fez machado da querra que comecei mas, vejo hoje em rajadas, jamais pude, ou poderei, ganhar.
Pela janela, o céu cobre-me o rosto da chuva que se esconde no peito...

Não cheguei a dizer-te 'adeus', mas o teu tempo (o nosso tempo?) perdeu-se nos dias.
Não cheguei a dar-te um beijo, mas da minha boca saíram, quentes, todos os verbos.
Não cheguei a contar-te o meu mundo, mas lentamente abri as portas do teu (meu?)
Não cheguei a ouvir o meu peito quando pedia outro (igual?) mas estendi-te os braços de par em par.

- Hoje sou sujeito, conceito abstrato, uma imensidão... Em mim!

Não cheguei a deixar-me gostar, mas senti... Sempre!
Não cheguei a dizer-te 'adeus', mas até sempre... talvez.

26 abril, 2010

xiu!


N
ão gosto de silêncios.
Forçados. Impostos. Cansados.
Silêncios marcados pelo medo de afirmar.
Silêncios pela falta de verbos a trocar.
e tanto que eu tinha para falar...
até de silêncios!... Ou deixar-me apenas respirar

Vago é o barulho da interrogação
Ruído cego sem calar, senão por mais silêncios!
E eu não gosto de silêncios...

mas gosto de ti... gosto... enquanto a voz
não se apagar.
---Xiu!

18 janeiro, 2010

Às vezes o mundo dissolve-se nos olhos e a imagem torna-se demasiado difusa para ler. Em neblina nascem os dias que já passaram e crescem as gotas sufocadas por um grito. Era demasiado tarde naquela tarde em que o telefone tocou. Lá fora os passos continuavam cadenciados pelo frenesim de quem corre.

- Porquê?

- Porque já não sei…

E de que vale a espera? De que vale o frio que se cola ao corpo sem pudor? Mais que um gesto perdido nos dias, mais que o sorriso dado ao vento fica o som da palavra que se engasgou no peito.

- E quando saberás?

-Talvez um dia…

Cumpre-se o fado.

10 outubro, 2009

amanhã, talvez

- cada vez escrevo menos. não falo da pena que me sustenta o vício e paga as investidas consumistas, mas da escrita que sai cá de dentro como um grito...
Porque me esfrangalho toda a cada palavra, porque dói cada frase construída e porque sem querer vejo espelhados os meus dedos.

Guardei os pontos de interrogação, fechei as dúvidas em lugar incerto.
e assim vou evitando rever-me, revisitar-me todo este tempo depois.
e assim deixo que o tempo passe e vá levando com ele a ânsia de tantas marés.

tenho o hoje
falta-me o amanhã...

24 agosto, 2009

tempus fugit

quantas vezes assalta a alma a ideia de um passado diferente, de como a escada descida ao contrário poderia levar para um outro plano de infinitos. são tantas as ondas que se deixam passar, tantas marés perdidas, outras tantas enclausuradas pela palma da mão em punhados de areia que se vão e os rios que seguem sempre para o mar. estar tão perto e tão longe, a largos dias de distância... e o relógio que não pára...

tic... tac... tic... tac...

...não entres pela porta que não deixei aberta. deixo-te a janela e a varanda, talvez o terraço para uma prosa...

21 agosto, 2009

segui-te hoje pela primeira vez. não sabia para onde ias nem onde os teus passos me levariam mas optei, mesmo assim, por ir. o caminho cheirava a outono, entre todas as peças que caíam de mim como que esquecidas. e era ver-te por entre as minhas folhas que cruzaste. agora, que finalmente me conseguiste ler, não lamento os passos que antes não demos. foram pedras deixadas ao acaso para que, sem mapas, guias ou sinais, nos encontrássemos no tempo certo.

Guardo na boca o sabor das gotas de chuva que inundaram os meus olhos
Guardo no peito o bater leve do teu riso que me aquece
Guardo-te em mim...